A Lenda do Viado da Madrugada




Prefácio




Saudações, leitores encarnados.

Hoje venho trazer-vos uma história lendária, que prometi que traria em "Sobre o autor": A Lenda do Viado da Madrugada. Essa história vos apresentará um icônico personagem da belíssima cidade mineira de Poços de Caldas. Aliás, naquela época, lá pelos idos de 1940, a cidade era famosa por suas figuras icônicas, quais sejam o Viado da Madrugada, a Maria Borsuda (com seu famoso bordão: "Vai à puta que pariu, desgraça pelada"), o João Frô e a Nany People; sim, foi de lá que ela veio. Fantástico, não? Ela é parente do meu amigo D... "não vou dizer o nome"... Pessoa. Pensaram que People vinha de onde?

Mas voltando ao assunto, dessa vez não serei eu quem vai contar a história. Eu adoraria, mas vou preferir passar a palavra a um grande amigo, que viveu de perto aqueles tempos em Minas Gerais. Seu nome é — sem gracinhas de 5ª série por favor — Jacinto Pinto Aquino Rego. É, ele sofreu muito na vida por causa desse nome, portanto sejamos respeitosos para com ele. E sabe, acho que foi por isso mesmo, por ter sofrido muito na vida, que Jacinto se tornou tão empático e respeitoso com as pessoas, especialmente as diferentes como nós, gays. Ele, sendo hétero em 1940, quando a homossexualidade ainda era crime em muitos países ocidentais (eu que o diga, né?), ousou ser amigo do famigerado Viado da Madrugada; e do João Frô a da Nany People também, mas vamos focar no Viado da Madrugada neste conto, pois a história é mais emocionante — e também mais dramática. Quem me conhece sabe que drama não é muito meu estilo, sou do humor, mas nesse caso vou ter que abrir uma exceção, pois essa história precisa ser contada. Mas não se preocupem, vai ter humor também; sempre tem, não tem como evitar, não é? A vida é tragicômica.

Enfim, seja como for, deixo vocês agora com Jacinto, na esperança de que apreciem essa história, que terminou por se tornar um verdadeiro conto... cômico?... erótico?... cômico-erótico??... Enfim, apenas desfrutem.

Muchas gracias e...

Até!

Alan Mathison "Fantasma de" Turing



Saudações, leitores eróticos... quer dizer... — nem sei porque eu escrevi isso. Acho que estou possuído por Gay-Lusac... Enfim — Saudações, caros leitores.

Meu nome é Jacinto Pinto Aquino Rego (sem gracinhas de quinta série, por favor). Durante minha vida sofri muito com esse nome, que o engraçadinho do meu pai teve a brilhante ideia de colocar em mim. Mas isso sáo águas passadas, não me importa mais. O fato é que isso me inspirou a me tornar o escritor que hoje sou. Comecei quando ainda estava no primeiro ano do curso de Letras na UNESP de Araraquara. De novo, além das zueiras de 5ª série pelo meu nome, tive que aguentar meus colegas de república, que eram todos da Química, me zuando por eu fazer o que eles chamavam de "um curso espera marido". Não, sério, cada coisa que tenho que aturar.

Mas enfim, comecei escrevendo contos eróticos, e logo percebi que não tinha vocação para o ramo. Foi tudo ideia de um colega meu, o Urandir Campineiro. Ele disse: "Vamos escrever contos eróticos pra desestressar. Daí escolhemos pseudônimos, nomes de escritores famosos, e depositamos os contos anonimamente neste baú. Sempre que tiver contos novos nos reunimos pra ler e nos divertir". Eu ouvi isso e pensei: "Escritores famosos o caralho. Meu pseudônimo vai ser Gay-Lusac". E assim foi, até eu me dar conta de que não curtia aquele trem. Mudei então para os famigerados contos cômico-eróticos, e esses sim fizeram sucesso; foi aonde me estabeleci e iniciei minha carreira. Escrevi também teorias de comportamento humano, e diversas outras coisas. Certa feita, quando estive na Inglaterra para um congresso, tive o prazer de conhecer Alan Turing, que se tornou meu grande amigo. Eu nunca tive preconceito com os gays, e aliás, é disso que se trata toda essa história. Vocês vão ver.

Depois disso voltei para o Brasil e consegui arrumar um emprego de professor na PUC Minas — Campus Poços de Caldas. Que cidade maravilhosa! Fiquei enchendo o saco de Alan até conseguir convencê-lo a vir me visitar. Ele veio, e foi justo nessa ocasião que acabamos conhecendo o Viado da Madrugada, figura icônica da cidade. A história era a seguinte: rezava a lenda que o Viado da Madrugada era um viado que ficava vagando pelas madrugadas de Poços de Caldas. Até aqui, nada mais óbvio. Um homem negro, jovem e muito elegante, sempre vestindo seu terno e gravata, extremamente educado e que, diziam, lançava mão de uma estratégia ardilosa para abordar as pessoas. Ficava escondido atrás de uma esquina, observando sem ser visto e esperando alguém passar por ali. Quando percebia que a pessoa estava prestes a dobrar a esquina, ele fingia que estava caminhando desavisadamente por aquela calçada, e também dobrava a esquina, só que no sentido oposto. Com isso ele inevitavelmente chocava-se com a pessoa, e imediatamente desculpava-se de forma extremamente polida. E, depois disso, ainda muito polidamente e com sua voz grave e solene, proferia as palavras que se tornaram sua marca registrada: "Boa noooite, boa noite!"

Eis aí a estratégia do Viado da Madrugada para abordar pessoas na madrugada de Poços de Caldas, e conseguir uma conversinha; quem sabe mais... Acontece que os homens da cidade não gostavam nada disso. Imagine só: 1940, ser gay não era nada fácil. Os homens eram todos machões: ou héteros, ou gays enrustidos. Só guerreiros como o Viado da Madrugada, João Frô e Nany People tiveram coragem de se assumir.

É nesse contexto que nossa história começa. Era um quinta feira de julho de 1940. Poços de Caldas sempre foi agitadíssima em Julho, típico de uma cidade turística. Tínhamos basicamente três lugares para frequentar: O New York Pub (sim, esse lugar é centenário), o Bar do Mirto (o Mirto também é centenário) e a boate, que é centenária mas mudou de nome várias vezes; não sei todos os nomes, mas naquela ocasião era conhecida como Carinhoso. Que bosta de nome. Enfim, seja como for, tínhamos essas opções. Mas havia ainda duas opções alternativas: a Boate Bauxita e a Casa Borbas, que se tratavam de dois puteiros. O primeiro era um cabaré tradicional da década de 1940, enquanto o último, bem... era uma casa mesmo, mais simples, que oferecia serviços alternativos, para um público bem específico. Era um puteiro de travestis, essa é que era a verdade. E tinha seu público viu; muito machão ia lá. Mas eu nunca fui lá. Enfim, Borbas vinha de borboleta, era o termo que se usava na época; lagarta, queria virar borboleta, essas coisas.

Alan estava chegando, e nós iríamos no Bar do Mirto.




Em frente ao puteiro dos travecos...

— Alan, eu não vou entrar aí. Por nada que eu entro aí. Eu prefiro morrer preto do que entrar aí.

— Morrer preto? Mas que frase racista é essa meu Deus do céu??

— É o Mussum que fala, portanto não é racista. E eu não vou entrar aí.

— Mussum? Quem é Mussum?

— Como assim quem é Mussum? Em que planeta você... Ah é, esqueci que você é inglês. Não importa. Eu não vou entrar aí.

— Ok, fique aí então. Eu vou entrar.

— Então, eu vou-me embora.

— Boa viagem. Passar bem.

— Passar bem... seu viado do caralho, fié da puta...

— O que foi que você disse??

— Nada, nada... Passar bem. Divirta-se aí. Até mais. Fui!





Jacinto Pinto Aquino Rego

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